Sobre regar


Ficávamos juntos dias e noites, então foi perfeitamente normal deslizarmos as mãos a procura um do outro pela cama. Porque tu sempre deixavas, pra mim, o Ipod por perto e eu sempre deixava pra ti, o DS embaixo do travesseiro, para que, como um cavalheiro, tu te desvencilhasses de mim e derrotasse a equipe rockett. Foi bem normal dividirmos o tempo entre raiva e um choro pesado que nos engasgava e nos deixava com mais raiva ainda. Ta certo que foi meio patético ligar todos os dias para os nossos amigos reclamando e sentido saudade um do outro. Mas no meu caso, bem, ai... Eu sempre te chamei de: bem. Meu bem. No meu caso, meu bem, eu reclamava do tempo que tu não dedicavas a me ver regando as rosas ou a cantar comigo no chuveiro. Será que você reclamou as vezes que eu não segui o teu raciocínio sempre lógico e pratico ou as vezes que... Ai Deus, você contou, vo-cê-con-tou de quando eu fui viajar com meus amigos de colégio e te traí com um ex-namorado. Eu sabia que tu não tinhas me perdoado, babe, minha mãe me disse pra não contar, pra deixar de lado, porque foi só um deslize, né? Olha, vou dizer que eu falei muito mal da sua mãe. Meu bem, coitada da sua nova esposa, ela vai sofrer na mão daquela megera. Ah, pára de rir. Eu falei mal mesmo e falei pra Dette, porque ela é fofoqueira, ah meu bem, era raiva, só raiva. Não, pra chorar eu liguei pra Tais, ela é muito mais paciente e tem aquele romantismo nato, parecido com o seu e esse romantismo me irritava tanto meu bem, quando tu vinhas com flores e bilhetinhos sem motivo, sempre pensei que estava me traindo. Nunca? Nem uma veizinha? E as vagens da firma? Impossível que nunca tenha me traído. Impossível, pára de mentir! AUSHAUSHAUSHASUHAU bobo!
Eu sei que esse meu jeito também te deixava contrariado, mas é difícil acreditar em romantismo, em felizes-para-sempre nesse mundo tão hostil, sabe, essas pessoas apressadas foram levando em seus passos os pedaços de amor que eu tinha. Sobrou-me apenas regar rosas e querer tu lá me vendo trabalhar. Me amando com o cabelo bagunçado, as mãos feridas por espinhos e ferramentas, me amando bruscamente pela estufa até quebrar uns vasos e eu te expulsar dali com ódio, com dor por tu ter maculado meu templo. Não me olha com essa cara, tu já me conheceste assim, contraditória, com mimimis e não-me-toques. Adoro quando tu abaixas a cabeça e ri com o canto direito da boca, parecendo não acreditar no que eu falo. Adoro. Que? Não, mas tu devias tentar me agarrar na estufa, eu queria.
Queria também ter me desculpado pelas mancadas contigo, os atrasos, o café fraco, esquecer compromissos e não conseguir, de jeito nenhum, entender tua irmã. Só não o fiz antes porque eu esperava que tu se desculpasses por não sentir o cheiro de flores, o carinho incondicional dos nossos cachorros e por nunca ter me dado um filho. Olha pra mim, eu sonhei todos os anos do nosso casamento em ter um filho teu, com o mesmo sorriso de canto de boca, as costas largas, o raciocínio e a paixão por flores e animais que eu tenho. Tu não te desculpaste então venho eu aqui, Afinal, se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir?
Te desejo um amor enorme, maior que o que nos uniu, gigante e colorido das cores que a gente não usou. Porque se é amor novo, tem que ser tudo diferente. Não vá esquecer de olhar pra ela, de agarrá-la sem motivo e com força, não pode usar rosa-verde limão-marrom-e-amarelo nesse casamento porque essas são as cores do suéter que a jararaca da tua mãe me ensinou a fazer pra você. E faz um filho nela, um não, faz uns três logo e me chama pra conhecer, apesar do que diz teu pai, eu não sou uma bruxa e não vou tacar uma praga em teus filhos. Só não esquece de acordá-la com a mesma subtileza que tu me acordavas pra que eu não levasse um susto em segundas-feiras terríveis e não me chama de Ex-mulher, ex-esposa. Ex é tão tristemente patético, me chama pelo nome, pelo apelido que me deste na faculdade. E o mais importante, quando eu for casar mais uma vez, sei lá, quando eu me despertar por amor em um cara que conheci no metrô, vem na minha casa se eu estiver com medo. Como eu tou fazendo com você agora, pra que eu não desista de ser feliz. De novo.



Obs.: A Tatá, que está no texto, me disse uma coisa sobre o outro post "festivel de textos deprimentes". Tudo bem, não estou nos meus melhores dias & ta, mas pra que deixar meu blog todo feio e triste se ele é uma das coisas que mais me alegram & aliviam no mundo? Acabou os textos chatos, tristes e cheios de dor. Faço assim, dou tempo pra minha dor, sinto até o fim e disso, só vou tirar textos alegres, sei lá, ironicos, humor negro as vezes é tão feliz, não?
Um beijo para quem me lê. Um beijo pra minha flor capixaba, Tatá.

3 palavras:

Tatá R. da S. disse...

Só uma coisa me entristeceu... Você não sabe escrever meu nomeeeeee!! TToTT
É THHHHHHais, amore, Thais. Não esqueça mais do "h", promete? u.u'
Eu tenho trauma pq todos escrevem meu nome sem "h", menos o Pe qdo vai brigar comigo, e alguns amigos de longa data, ainda bem. -.-
E este texto tá lindo!!!!!!!! Adorei! Pareceu um filme... Tão detalhado, tão bem contado. Me diverti. Vá ser cineasta, vá popota, só não siga os roteiristas brasileiros, que eu assistirei todos. Todos que não falem de tráfico, pobreza e amores novelísticos. =)
Beijos, quiamo!

Tatá R. da S. disse...

"Afinal, se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir?"
Ah, essa frase que ficou perfeita!
=*

João Romova disse...

Concordo aqui, discordo ali (da sua observação).As vezes sentir a dor de forma franca é o que faz esgotá-la, pulverizá-la. Morre-se uma vez, mas o renascer é para toda uma vida.

bjos mil

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Dizer o que pensa é o direito de todo homem livre, na paz e na guerra, no conselho e na luta.

Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo

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